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O segredo da felicidade...


- Qual o segredo da felicidade? – a pergunta me pegou de surpresa. De fato, as coisas mais bobas às vezes me parecem as mais interessantes. Nunca tinha parado pra pensar em uma resposta para essa pergunta, mas agora cá estou eu, encarando-a... É claro que não consegui pensar em uma resposta plausível. Mas tentei.
- Vou te responder... – disse, mas não tinha a resposta na ponta da língua. Olhei para aquela criança que tinha me feito a pergunta, e a expressão dela era de mais pura inocência. Não pude evitar... – Feche os olhos! – continuei, lógico que teria que apelar para a espontaneidade e minha péssima capacidade de improvisação.
A criança me olhou confusa, mas em seguida fechou os olhos, obediente.
Segurei a mão dela, e, sem mais palavras, sai caminhando, abrindo caminho por entre vários pacientes. Alguns que ouviram a pergunta da menina e ouviram também que prometi responder, começaram a me seguir; de crianças a idosos. Alguns começaram a me seguir, ansiosos.
Meu coração, claro, pulsava cada vez com mais fervor, e pior, eu não sabia o que fazer! Pela primeira vez em toda a minha carreira eu não sabia o que fazer.
- Você sente minha mão na sua? – perguntei da menina; ela balançou a cabeça afirmativamente. – Ainda de olhos fechados, você consegue ver nossas mãos se tocando?
Lógico que não. Eu sabia a resposta, mas queria que todos que agora me seguiam, entendessem aonde eu estava querendo chegar. Enfim, estava conseguindo ser coeso, apesar de confuso. Caminhamos todos pelo corredor principal do hospital, onde havia várias salas repletas de leitos que sustentavam os pacientes de casos mais graves.
E mais curiosos me seguiam. Principalmente depois de atravessarmos a sala de espera, e irmos de encontro a porta de saída do hospital.
Tão logo estávamos sob a luz matinal do sol, e logo depois, no pequeno jardim do próprio hospital.
- Agora, Amanda, que cheiro está sentindo?
Ela inalou suavemente até encher seus pulmões. O engraçado é que muitos dos que tinham nos seguido também fizeram o mesmo.
- Sinto o cheiro de muita coisa. É um cheiro bom! – disse ela, sorrindo.
Foi tudo espontâneo, pois no mesmo momento um passarinho começou a assobiar em uma árvore próxima, e pedi para Amanda me relatar tudo o que estava sentindo. Sem perceber, Amanda utilizou todos os sentidos dela, involuntariamente, e por fim, pedi para ela abrir os olhos.
E, como se tudo aquilo fosse novo, ela sorriu. E, diante de seu sorriso, me derreti completamente e a abracei. Enquanto todos aqueles pacientes e não-pacientes estavam nos observando, eu os fitei e disse em alto e bom som:
- Isso tudo é o segredo da felicidade.
Amanda pulou nos meus braços de tanta euforia, e todos voltamos para o hospital sorrindo, acreditando que o que importava mesmo é que estavam vivos para ver um momento desse acontecer. Mesmo estando em fase terminal de um câncer, que outrora consumiu a felicidade de cada um deles.
É fato também que esse foi o momento mais importante da minha carreira de Oncologista. Porque eu também aprendi, e sofri, e sorri.
Neste mesmo dia, um pouco mais tarde, perdi Amanda, minha única filha, para a leucemia. Mas antes disso, consegui ainda ver um sorriso nos lábios da minha pequena menina...